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Diário #1 - Pensamentos soltos sobre a perda



  Sabe, eu leio muito, e em quase cem por cento das vezes acabo tendo um nível de investimento emocional preocupantemente grande com os livros, o que se torna um problema bem sério porque em quase toda história há uma perda, consequentemente fazendo com que eu tome as dores dos personagens.

   É perturbador, é doloroso, mas assim que você termina a última página sabe que o que ocorreu ali não foi com você, não foi a sua história a afetada e há ainda a segurança de que as consequências geradas não irão mudar sua vida de um modo drástico, apenas lhe ensinar coisas. Só que é bem diferente quando acontece de verdade.

   Eu nunca tinha lidado tão diretamente com a morte até esse ano, onde em quatro míseros meses perdi três alguénzinhos muito amados. As pessoas costumam comparar a morte de alguém como um rombo na alma do qual nunca nos recuperamos, já pra mim é mais parecido com aquela sensação que temos quando estávamos com algo nas mãos e no minuto seguinte não sabemos aonde está. Não entendi muito bem o porque dessa comparação surgir na minha cabeça, depois, cheguei a conclusão de que isso vem do fato de que acredito que deixamos um pedacinho nosso com cada pessoa que conhecemos e amamos, e quando elas se vão, parte nossa vai também. E tem sido assim desde a primeira experiência até essa última, só que o alívio de encontrar o que perdi nunca chega. Essa é a pior parte. Quando eu sinto saudades, automaticamente lembro que esse tipo de saudade eu nunca vou parar de sentir. E aos poucos também fica difícil lembrar como é a sensação de ter essas pessoas perto, de como era conviver. Mas talvez seja essa a beleza da coisa: a saudade constante e incurável é a forma mais simples, ainda que dolorosa, de lembrar de quem se foi.

   Apesar de tudo, não me arrependo de ter deixado partes de mim com essas pessoas assim como não me arrependo de ter ficado com partes deles. Eu sei que vou mantê-los pra sempre em algum lugar especial de mim, e que de alguma forma eles farão o mesmo.

   Mas tem sido cinza e chuvoso por enquanto.

   Minha mãe resumiu toda essa confusão em uma frase só e eu tenho concordado com ela desde então "A vida é estranha às vezes".

Caçadores de títulos

     Correria e olhares desconfiados. Gotas de suor escorrendo, mas não tão rápido quanto os pensamentos dos participantes. Um olhar mais focado e pronto. Mãos encontram a grama com determinação, então um grito "- Eu encontrei!". Cumprimentos amigáveis, apertos de mão bem intencionados e até mesmo algumas reclamações, resmungos e olhares invejosos que de nada adiantam pois o vencedor já foi declarado.
     Quase todos brincaram de caça ao tesouro quando menores e são poucos os que não se encontravam com os olhos brilhando, mergulhados no sentimento de dever cumprido após a recompensa ter sido encontrada.
      É  engraçado como não percebemos que a própria vida acaba sendo parecida com essa brincadeira. Inconscientemente colocamos bens materiais, cargos, experiências, seja o que for, no lugar dos tesouros, então nos esforçamos (às vezes de forma não saudável) para alcançar isto.
Não é algo ruim a princípio, o desejo por mais é um dos impulsos humanos mais incontroláveis e sorrateiros. Por exemplo, é impossível que ao menos uma vez você não tenha desejado ser o mais inteligente da turma, o primeiro das competições. Coisas assim nos levam a lugares nesse mundo bagunçado, não é uma ganância sem justificativa, apenas se enquadra como um meio para um fim. Sempre foi assim, quem se esforça mais tem mais chances de conseguir o que alveja.
       O problema é que ultimamente o que eu mais vejo são pessoas caçando os títulos errados, tentando alcançar posições e coisas superficiais, em maioria para mostrar aos outros que são, de alguma forma, melhores. Quantas vezes você já não viu alguém se gabando por ter o último lançamento em celulares, roupas, acessórios. Ou alguém se gabando por ter trocado alguns beijos com "os mais bonitos". Por ter pego n pessoas naquela balada. Por ter sido convidado para tal festa. Por isso, por aquilo. Não dá pra negar que uma das melhores partes, mesmo que soe de forma má e egoísta, era sim mostrar a todos que o bem tão precioso e tão buscado agora era seu, você o havia conquistado, mas isso só é perdoável quando se é criança e não se tem noção de como as atitudes afetam as pessoas ao redor.
        Deixa eu falar uma coisa:  a verdade é que ninguém realmente se importa com isso! Pode ser que na hora haja aquele olhar "wow, queria que isso acontecesse comigo", mas as pessoas que tem a cabeça no lugar sabem que ficar chorando ~vitória~ alheia e não tentar atingir o mesmo ponto é desperdício de potencial, e mais, elas sabem que ficar invejando coisas superficiais é estupidez. Nesses momentos as pessoas que amam se vangloriar sentem aquele famoso calorzinho ao contar esse tipo de coisa, aquela sensação de que se está em um lugar superior. Mas tão rápido quanto esse sentimento vem, ele vai embora e todo aquele esforço parece ser... em vão. Não tem muitas outras coisas para mostrar, foi um momento e ele já passou, passou sem te ajudar de forma alguma ou deixar um pedacinho de história pra ser contado, pois já se fez isso uma vez e figurinha repetida não tem valor.
     Passar tanto tempo buscando algo que não te faz 100% feliz ou completo mesmo depois de conquistado, algo que não vai te ajudar a avançar na vida ou deixar um ensinamento importante, não é uma atitude muito esperta (apesar de muito tentadora). É tão fácil se distrair e perder o foco no que se quer, sair em busca de pequenas felicidades por aí porque elas são mais rápidas de ser alcançadas, acho que todo mundo faz isso sem perceber. Só que parando pra pensar, não vale tanto a pena assim.
        Por isso eu pergunto: que tesouro você anda procurando? E por quê?



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